Por que algumas pessoas nunca conseguem esquecer o passado?
Há alguns dias, uma paciente me fez uma pergunta que continuou comigo depois que ela foi embora.
Ela queria entender por que uma lembrança antiga ainda conseguia mudar completamente o seu dia. O fato havia acontecido muitos anos antes. A vida seguiu. Vieram outras pessoas, outros lugares, novas experiências. Mesmo assim, às vezes bastava ouvir uma música ou passar por uma determinada rua para sentir um aperto que ela acreditava já ter deixado para trás.
Enquanto ela falava, lembrei de outras conversas que tive ao longo dos anos. Cada pessoa chegava com uma história diferente. Algumas falavam do fim de um relacionamento. Outras lembravam de situações vividas na infância. Havia também quem não conseguisse explicar exatamente de onde vinha o sofrimento. Apenas dizia que existiam momentos em que tudo voltava.
Durante muito tempo, pensei nessas histórias olhando apenas para a memória. Fazia sentido imaginar que o sofrimento permanecia porque a lembrança permanecia. A experiência clínica foi mostrando um caminho um pouco diferente.
Duas pessoas podem guardar lembranças parecidas e construir vidas completamente distintas. Não é raro encontrar irmãos que cresceram na mesma casa, passaram pelas mesmas dificuldades e hoje falam da infância de maneiras muito diferentes. A experiência compartilhada é apenas uma parte da história. Cada um organiza aquilo que viveu de um jeito próprio e, aos poucos, essa organização começa a influenciar a forma como interpreta o presente.
É nesse ponto que costumo prestar mais atenção durante uma sessão.
Quase nunca a pessoa está sofrendo apenas pelo que aconteceu anos atrás. Ela já tomou inúmeras decisões desde então, conheceu pessoas, viveu outras experiências e mudou em muitos aspectos. Ainda assim, algumas conclusões permanecem silenciosamente acompanhando o seu modo de viver. Sem perceber, ela passa a esperar das pessoas aquilo que um dia precisou enfrentar. Passa a desconfiar antes de conhecer. Evita situações que talvez nunca representassem um perigo real. Em alguns casos, acredita que certos desfechos são inevitáveis simplesmente porque um dia aconteceram.
Quando observo esse movimento, dificilmente penso na memória como um arquivo que ficou aberto por tempo demais. O que me chama atenção é a maneira como aquela experiência acabou encontrando espaço dentro da história que a pessoa construiu sobre si mesma.
Talvez seja por isso que tantas tentativas de esquecer o passado terminem em frustração.
A questão nunca me pareceu estar na capacidade de lembrar ou esquecer. Com o passar do tempo, fui percebendo que a mudança começa quando a pessoa consegue olhar para a própria história sem permitir que ela continue definindo todas as outras páginas que ainda serão escritas.
Essa é uma diferença que costuma passar despercebida.
O passado continua fazendo parte da nossa história. Ele não desaparece. O que pode mudar é a forma como seguimos caminhando depois de compreender o lugar que ele ocupou na nossa vida.
Foi convivendo diariamente com histórias como essa que comecei a escrever A Mente que Adoece é a Mesma que Cura. Não para ensinar alguém a esquecer o que viveu, mas para mostrar que compreender a própria mente costuma ser um passo importante quando queremos deixar de viver apenas a partir daquilo que nos aconteceu.






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