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 Quando o medo de mudar fala mais alto do que a vontade de crescer

Quando o medo de mudar fala mais alto do que a vontade de crescer


Há alguns anos, uma pessoa chegou ao consultório dizendo que estava cansada de repetir a mesma história.

Ela começava projetos com entusiasmo, fazia planos, estudava, trabalhava e, quando tudo indicava que finalmente iria avançar, acontecia alguma coisa. Às vezes perdia um prazo importante. Em outras, desistia perto da conclusão. Também havia momentos em que criava tantas exigências para si mesma que acabava não entregando nada.

Enquanto ela falava, percebi que usava uma palavra para explicar tudo aquilo.

Autossabotagem.

É uma palavra que ouvimos com frequência. Ela aparece em livros, vídeos e redes sociais. Aos poucos, passou a ser usada para explicar qualquer comportamento que atrapalha um objetivo. O problema é que, quando damos um nome rápido para alguma coisa, também corremos o risco de parar de investigá-la.

Nem toda interrupção nasce no momento em que a pessoa desiste.

Em muitos casos, ela começou anos antes.

Ao longo do tempo, fui percebendo que existe uma diferença entre aquilo que a pessoa deseja construir e aquilo que ela acredita conseguir sustentar. Essa diferença quase nunca aparece de forma consciente. Ela vai se revelando nas pequenas decisões, na forma como reage diante de uma oportunidade, no desconforto que sente quando começa a ser reconhecida ou quando percebe que sua vida pode tomar um rumo diferente daquele que sempre conheceu.

É curioso observar isso.

Algumas pessoas suportam anos de sofrimento com uma resistência impressionante. Quando a vida finalmente começa a oferecer algo diferente, o desconforto aparece justamente diante da possibilidade de mudança.

Não porque desejem continuar sofrendo.

Porque o novo também exige reorganização.

No livro A Mente que Adoece é a Mesma que Cura, escrevo que muita gente chama de personalidade aquilo que, na verdade, foi apenas a forma mais antiga de adaptação que conseguiu sobreviver. Com o tempo, aquilo que começou como proteção passa a parecer identidade.

Quando essa identidade permanece intocada durante muitos anos, ela começa a estabelecer limites silenciosos.

Há pessoas extremamente competentes que vivem muito abaixo daquilo que poderiam realizar. Não lhes falta inteligência. Também não lhes falta oportunidade. O que existe é uma convicção antiga de que determinados lugares pertencem sempre aos outros. Em muitos casos, essa limitação aparece antes mesmo da tentativa.

Existe ainda um aspecto que costuma passar despercebido.

Nem sempre a pessoa acredita que merece permanecer onde chegou.

Ela conquista, cresce, recebe reconhecimento e, pouco tempo depois, encontra uma maneira de voltar ao lugar que já conhece. Não faz isso por escolha consciente. Faz porque aquele lugar continua parecendo mais familiar do que aquilo que acabou de conquistar. O manuscrito chama atenção para esse ponto ao descrever o merecimento como um limite invisível que leva aos recuos, à culpa e à autossabotagem discreta.

Talvez seja por isso que combater a autossabotagem apenas com disciplina raramente seja suficiente.

Antes de mudar um comportamento, quase sempre precisamos compreender a estrutura que continua sustentando esse comportamento.

Foi essa percepção que transformou a maneira como passei a olhar para muitos pacientes e, em alguns momentos, para mim mesmo.

A mudança começa a ganhar consistência quando a pessoa deixa de perguntar apenas por que fez isso outra vez e passa a observar qual parte da sua história ainda está tentando decidir o presente.

Porque existem escolhas que pertencem ao adulto que nos tornamos.

Outras continuam sendo feitas por versões muito mais antigas de nós mesmos, que um dia aprenderam que sobreviver era mais importante do que crescer.

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